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A Imigração Senegalesa e o Papel da Pastoral da Mobilidade Humana: entre a Teranga e o Carisma Scalabriniano

ADJI SALIMATA DIAGNE, Adjaratou Mali, Oumi, Cheikh Kebe, Papa Badiane, Samba, Kaliou Diop. São tantos nomes, rostos e histórias que atravessam oceanos, fronteiras e silêncios. Histórias que se encontram e se reencontram nas travessias da migração, carregando consigo memórias, saudades, idiomas, dores e esperanças.

Cada nome guarda um universo inteiro: mães que deixaram filhos por um tempo indeterminado, jovens que partiram em busca de dignidade, homens e mulheres que aprenderam a reconstruir a vida longe da terra natal. Há jornadas marcadas pelo cansaço e pela coragem, pela fé e pela incerteza. Mas há também reencontros com a comunidade, com a própria identidade e com a possibilidade de voltar a sonhar.

No Senegal, a palavra Teranga, da língua Wolof, define mais do que hospitalidade: define uma filosofia de vida. É o gesto de acolher o outro como parte da própria casa, de dividir o alimento, de escutar, de respeitar os mais velhos e de compreender que ninguém vive sozinho. A Teranga é presença, partilha e comunidade.

E talvez seja justamente por isso que muitos senegaleses costumam dizer que amam o Brasil e que se sentem em casa no Guarujá.

Na Pastoral da Mobilidade Humana da Paróquia Nossa Senhora das Graças, esses nomes deixaram de ser apenas estatísticas migratórias. Tornaram-se presença, amizade, partilha. Tornaram-se família.

Ao redor de um café, durante as aulas de português, nas visitas às casas ou nos encontros comunitários, histórias começaram a ser costuradas umas às outras. E, pouco a pouco, aquilo que era distância transformou-se em vínculo.

Por meio da pastoral, muitos migrantes passaram também a conhecer mais profundamente Vicente de Carvalho, suas ruas, sua cultura popular e as histórias dos nordestinos que, décadas antes, também chegaram ali movidos pela necessidade de sobreviver e reconstruir a vida. Nesse encontro entre migrações, surgiram reconhecimentos silenciosos: a saudade da terra natal, o trabalho duro, a esperança insistente e o desejo de pertencimento.

A maioria dos senegaleses da região trabalha como ambulante nas praias. Caminham quilômetros sob o sol, enfrentam o peso das mercadorias, as incertezas do trabalho informal e a distância da família. Ainda assim, grande parte do que conquistam é enviada para seus familiares no Senegal. Cada valor remetido carrega cuidado, responsabilidade e amor. Migrar nunca significou esquecer suas raízes, mas sustentá-las mesmo à distância.

A caminhada da pastoral começou de maneira simples e profundamente humana. As irmãs leigas scalabrinianas Joyce Ramalho e Juliana Ramalho iniciaram esse trabalho aos 26 anos, ao lado do padre Jesuz González, inspirados pelo carisma de João Batista Scalabrini. Hoje, aos 29 anos, continuam percorrendo caminhos, escutando histórias e construindo pontes.

Primeiro vieram as cestas básicas. Depois, as visitas às casas, os cafés compartilhados, os cursos de português, os diálogos atravessados por diferentes idiomas e culturas. Mas o maior gesto construído pela pastoral nunca foi apenas material.

Foi a confiança.

Confiança que nasce quando alguém aprende o nome do outro. Quando senta para ouvir suas dores. Quando compreende que acolher não é somente oferecer ajuda, mas caminhar junto.

Como ensinava Scalabrini, acolher o migrante é acolher o próprio Cristo em movimento. Por isso, a pastoral tornou-se mais do que assistência: tornou-se presença.

Hoje, essa missão também é fortalecida por importantes parcerias, como o apoio da Universidade Católica de Santos e da Faculdade Cásper Líbero, além da dedicação de três voluntárias destemidas, que ajudam diariamente a transformar cuidado em pertencimento.

Há algo profundamente simbólico nesse encontro entre a Teranga senegalesa e o carisma scalabriniano. Ambos afirmam, de formas diferentes, que ninguém deveria caminhar sozinho. Ambos compreendem que a dignidade humana nasce também da capacidade de reconhecer o outro como irmão.

Talvez seja por isso que tantas histórias migrantes florescem justamente nos lugares onde encontram escuta.

Porque migrar não é apenas atravessar fronteiras geográficas. É atravessar medos, ausências e silêncios. E toda travessia humana precisa de mãos que acolham.

Ao final, o que permanece não são apenas os documentos regularizados, as aulas ministradas ou as cestas entregues. O que permanece são os vínculos criados. As mesas compartilhadas. Os sotaques misturados. As crianças brincando juntas. Os abraços depois das longas jornadas de trabalho. A certeza de que alguém espera sua chegada.

Como escreveu João Guimarães Rosa:

“O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.”

E talvez seja exatamente aí no meio da travessia que a Pastoral da Mobilidade Humana continue aprendendo, todos os dias, o verdadeiro significado de comunidade.

Texto de Juliana Ramalho e Joyce Ramalho

 

Paróquia Nossa Senhora das Graças, Vicente de Carvalho- Guarujá/SP - Diocese de Santos



 
 
 

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